Compromisso de Estado

Ao longo da minha trajetória como músico, professor, pesquisador e gestor cultural, compreendi que a cultura não pode ser tratada apenas como um conjunto de manifestações artísticas, mas constitui um dos pilares da formação de uma sociedade, que preserva a memória coletiva, fortalece a identidade nacional e amplia as possibilidades de desenvolvimento humano.

Foi com essa convicção que passei a defender uma visão institucional da política cultural. O fortalecimento da cultura não deve depender exclusivamente das prioridades de um governo ou das circunstâncias de determinado período histórico. Trata-se de uma responsabilidade permanente do Estado brasileiro, prevista inclusive na Constituição Federal, que estabelece o dever de garantir o acesso à cultura e de promover os meios necessários para seu desenvolvimento.

Essa compreensão orienta a maneira como enxergo o papel da Fundação Nacional de Artes. A Funarte possui uma história construída ao longo de décadas por servidores, artistas, pesquisadores e gestores que dedicaram seu trabalho ao fortalecimento da produção artística brasileira. Ao longo desse percurso, a instituição consolidou importantes programas, formou gerações de profissionais, preservou acervos e contribuiu para a circulação das diversas linguagens artísticas em todo o país.

Ao mesmo tempo, é evidente que instituições públicas necessitam de constante atualização. Mudanças sociais, tecnológicas e econômicas exigem novas formas de planejamento, novos instrumentos de gestão e novas políticas capazes de responder às necessidades da sociedade. Preservar uma instituição não significa mantê-la estática, mas permitir que continue cumprindo sua missão com eficiência e relevância.

Sempre considerei que a cultura deve ocupar posição estratégica dentro das políticas públicas. Ela dialoga diretamente com a educação, com o turismo, com a economia criativa, com a preservação do patrimônio, com a inclusão social e com a formação da cidadania. Uma política cultural consistente produz efeitos que ultrapassam o universo artístico, alcançando diversos setores da vida nacional.

As artes exercem papel fundamental na formação das pessoas desde a infância. O contato com a música, o teatro, a dança, o circo, as artes visuais e tantas outras expressões amplia a criatividade, desenvolve a sensibilidade, fortalece a capacidade crítica e contribui para a construção de valores que acompanham o cidadão durante toda a vida. Investir em cultura significa também investir na educação e no desenvolvimento humano.

Outro aspecto frequentemente pouco observado é a dimensão econômica da cultura. Milhares de profissionais atuam diariamente nas cadeias produtivas das artes, envolvendo criação, produção, ensino, pesquisa, conservação, comunicação, tecnologia, turismo e inúmeros outros segmentos. O fortalecimento dessas atividades gera emprego, renda, empreendedorismo e inovação, consolidando a cultura como um importante vetor de desenvolvimento econômico.

Também considero essencial preservar a memória institucional construída ao longo da história da Funarte. Seus acervos documentais, bibliográficos, audiovisuais e artísticos representam patrimônio de valor inestimável para pesquisadores, estudantes e para toda a sociedade. Cuidar desse patrimônio significa preservar parte significativa da história cultural brasileira.

Um compromisso de Estado

Ao olhar para o futuro, acredito que uma política cultural eficiente deve reunir alguns princípios permanentes: planejamento de longo prazo, valorização dos artistas e dos técnicos, descentralização das ações, fortalecimento das parcerias institucionais, transparência administrativa, incentivo à formação artística e ampliação do acesso da população às diferentes manifestações culturais.

Esses princípios não pertencem a uma gestão específica, mas decorrem da própria missão institucional da Funarte e do papel que a cultura exerce no desenvolvimento do Brasil. Quanto mais sólida for essa compreensão, maiores serão as condições para que a instituição continue cumprindo sua finalidade pública, independentemente das mudanças naturais que ocorrem ao longo do tempo.

Acredito que fortalecer a cultura brasileira significa fortalecer a própria sociedade. Quando as instituições públicas conseguem criar condições para que artistas produzam, pesquisadores investiguem, professores ensinem e cidadãos tenham acesso às diversas expressões culturais, toda a nação se beneficia.

Por essa razão, continuo defendendo que a cultura seja tratada como uma política de Estado. Mais do que incentivar manifestações artísticas isoladas, trata-se de construir bases permanentes para que o patrimônio cultural brasileiro permaneça vivo, acessível e capaz de inspirar as futuras gerações.

A cultura como compromisso de Estado
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